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BÚFALO BILL, O SONHO COMEÇA!

por Graziano Fredian

Búffalo Bill

O Homem que mais do que qualquer outro fez o Oeste Selvagem entrar definitivamente no imaginário  coletivo  mundial chamava-se Willian Frederick Cody, mas todos o conheciam como Buffalo Bill.  Nasceu em 26 de fevereiro de 1846, em Laclaire, estado de Eowa, o quarto de oito filhos, mas, poucos anos mais tarde toda a família mudou-se para Leavenworth, no Kansas. Não foi uma criança tranqüila, porque viveu desde cedo sob o signo da aventura, tanto que, desejoso de ajudar a família que estava   em dificuldades, já em 1857 conseguiu um emprego de mensageiro na Russel, Majors & Waddell,  uma firma de transportes em carroças, hábil cavaleiro trabalhou para o Pony Express onde, dizem, um dia se destacou  por ter percorrido, praticamente sem parar, cerca de quinhentos quilômetros em vinte e uma horas e quarenta minutos, mas não há comprovação histórica desse fato. 

Tornou-se guia de caravanas e batedor, e como tal se alistou em 1864 no Sétimo de Cavalaria  do Kansas, papel que viveu novamente alguns anos mais tarde chefiando os exploradores do Quinta  de Cavalaria. Em 1868, em troca de quinhentos dólares por mês, ocupava-se em obter carne fresca para os operários que assentavam os trilhos da ferrovia Kansas-Pacific Railroad. Segundo a lenda em dezoito meses matou 4.200 búfalos, merecendo imediatamente o apelido com o qual  passaria para a história. A sua fama de rei das estradas e de caçador infalível ( também era bem  cotado como carrasco de peles-vermelhas: parece que matou o seu primeiro índio aos onze anos! )  o transformou bem cedo em uma glória nacional. Por isso quando o grão-duque Alex III filho do czar Alexandre II da Rússia, chegou à América para experimentar a emoção de uma caçada e búfalos foi Cody quem lhe serviu de guia e exibiu-se na sua habilidade, sob os olhos incrédulos de  Alex e de seus cortesãos.

Búffalo Bill e sua costumeira 
saudação ao público
Búffalo Bill em
desenho de Ticci

Nem tudo o que conta a respeito dele aconteceu realmente. Na verdade Buffalo Bill tinha uma vigorosa constituição física e possuía um certo magnetismo, além de uma notável dose de vaidade. Dotado de enorme senso prático, conhecia como poucos a arte de se arranjar; além disso, provido de uma fértil imaginação conseguia transformar episódios banais em em narrativas emocionantes, capazes de causar espanto em quem o ouvia. Era um personagem, sabia sê-lo e se deliciava com isso, por isso  seu encontro com Edward Zane Carroll Judson, mais conhecido pelo pseudônimo de Ned Buntline, o foi mais que um sinal do destino. Buntline não era um grande escritor, mas como artesão das penas,  autor de dezenas de contos ambientados nas terras de fronteira ninguém o batia. O Oeste Selvagem com seus índios ferozes e os seus horizontes ilimitados, ainda em parte a civilizar, agradava em muito os tranqüilos leitores do Leste; assim na qualidade de colaborador do New York Weekly, Buntline decidiu ir em busca de material de primeira mão diretamente no campo, e foi direto ao Forte McPherson,  no Nebraska, onde prestava serviço um major chamado Frank North, do Quinto da Cavalaria, que se destacara por ter matado o chefe de um  bando de renegados Sioux e Cheyennes. 

North, porém, odiava a idéia de ser  tornar um herói de papel; como mais tarde veio a contar John Burke, um dos  mais apaixonados biógrafos de Búffalo Bill, o major disse a Buntline: - Não, eu não sirvo para você, e com um rizo zombeteiro indicou um jovem que dormia embaixo de um monte de uma carroça, apesar de um enxame de moscas que rodava em volta de sua cabeça: Se quiser um homem adequado a esse objetivo, lá esta ele, embaixo daquela carroça. Cody na época, tinha vinte e três anos e embora no momento do seu primeiro cara-a-cara com Buntline, não estivesse nas suas melhores condições (estava de ressaca após uma noite na cantina local), foi logo adotado pelo impetuoso cronista.  Buntline ouvia, fazia anotações, pedia detalhes, entusiasmava-se com as narrativas do jovem Bill. Os chamados dime novels  ( romances curtos ), escritos em poucos dias para um público pouco exigente, em busca apenas de emoções e de golpes  de cena,  tinham encontrado uma nova estrela.

Búffalo Bill, Texas Jack
e Wild Bill Rickok
Cena de um espetáculo do Wind West Circus

Verdadeiras ou falsas que fossem as suas façanhas, Búffalo Bill fez a primeiras volta ao mundo nas páginas de 200  romances escritos por Buntline  os quais se somaram, depois da morte deste último, os 203  assinados por Prentis Ingrahan ( que contribuiu para transformar o rude homem da fronteira  posto em cena por Buntline, em um cavaleiro refinado e de modos enfáticos) e dezenas de outros, obras de velocíssimo profissionais como Willian Wallace Cook, Roberto Russel e Laurana  Sheldon, para não falar dos mil contos espúrios inventados por autores de outros países - Itália inclusive - para satisfazer a gula dos leitores. Inevitavelmente  Búfalo Bill começou a representar o papel de sim mesmo, não só na vida mas também no palco. Buntline o fez estrear em teatro, com uma peça, escrita em quatro horas que desgostou a critica, mas que foi recebida de boca aberta pelos expectadores, excitados em ver - em carne e osso - O Grande Herói da Fronteira. 

Búffalo Bill
Búffalo Bill
fotos da época

Depois de uma longa rodagem teatral-circense, sempre recebido por platéias lotadas, Bill estreou em 17 de maio de 1883, em Omaha, no Nebraska, um espetáculo feito de cavalgadas, tiroteios e perseguições desenfreadas, no qual era protagonista absoluto e testemunha onipresente. Participavam também uma turma ensandecida de pistoleiros, vaqueiros, índios, com suas denominações originais ( até Touro Sentado foi contratado por um período! ). Por trinta anos, o Wild West Circus, rodou de um continente a outro, registrando em toda parte a plaqueta esgotado: "Não é uma encenação ou a imitação da vida do oeste", escrevia o prestigioso Daily Telegraph, de Londres, por uma ocasião da turnê na Inglaterra, em 1887, "mas uma exata reprodução das cenas da crua vida de fronteira vividamente representada por personagens reais!". Enquanto ao redor da figura de Buffalo Bill se desenvolvia um verdadeiro negócio (além dos romances, imprimiam-se cartões, folhetos e catálogos com a sua imagem em primeiro plano), o mito do Velho Oeste como último éden encontrava uma consagração em nível planetário. E pouco importava se, como notava Emílio Salgari, em 1890, em um dos seus artigos para o jornal A arena, "hoje em dia o oeste americano não é mais aquele de doze anos atrás. Passou o tempo em que sete ou oito mil índios se metiam no caminho da guerra, passou o tempo em que se martirizavam os prisioneiros no poste da tortura... a civilização destruiu a barbárie; onde imperava o belicoso guerreiro vermelho agora impera o incansável pioneiro ianque". 

Pouco importava, em suma, se a cruel realidade da ocupação e o indiscriminado avanço dos brancos tinham destruído para sempre a beleza de locais em que a natureza era tão poderosa a ponto de deixar no coração um sentimento de temor. Agora que o oeste verdadeiro praticamente não existia mais, o mundo estava pronto para o oeste imaginário do cinema e das histórias em quadrinhos, dos romances de gênero... Buffalo Bill, que do oeste verdadeiro fora um filho, acabou sendo o pai do oeste imaginário, do sonho. Era natural, portanto, que dele se  falasse não como um mortal comum, mas quase de um semideus: Quando desmontou do cavalo, escreveu o empresário John M. Burke a propósito da primeira vez que viu Cody, fui apresentado ao mais belo exemplar da criatura de Deus que já vi. E senti que estava diante do que era o mais próximo possível do ser humano ideal, a exemplificação visível da afirmação que o homem é feito à imagem do seu Criador 

Wind West Circus
Buffalo Bill e seus atores
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Texto extraído da revista Ken Parker n.º 04 /março de 2001